sexta-feira, 25 de março de 2011

A cadeira da inês

Esse texto é da minha querida tia Maria Lúcia e a aquarela é minha...




A CADEIRA DA INES

Todas as vezes que passo pela estrada que chega até Claraval-MG, me recordo de velhos tempos e de como o progresso chegou tão rápido nesta região, hoje as estradas são quase todas asfaltadas, e como dizia Dona. Zélia, “agora vai ser uma correria e os acidentes nas estradas serão inevitáveis”,  há alguns anos atrás tais estradas ainda eram de terra e os ônibus quase sempre encravavam no meio do caminho principalmente na subida da serra.
Iamos quase todas as férias na Fazendo São Francisco, aonde os pastos eram muito mais verdes e muito mais bonitos. Dona Zélia tinha um Fusca Azul, até hoje tento entender como é que cabia tanta criança dentro dele.
Depois que arrumávamos a casa com o escovão pesado e ficava tudo brilhando, brincávamos o resto do dia em cima da mangueira, tudo em cima da árvore se transformava, cada galho representava objetos, imóveis, meios de transporte, havia a cozinha da Lucinha, o escritório da Aninha, com máquina de datilografia , um avião, uma praça, o ônibus da Mary, e um banco da Ines.
Escolhemos um dia para fazer piquenique, então passamos na represa para refrescar do calor intenso, a correnteza era forte, éramos todos crianças e se tornava difícil atravessá-la, eu usava rabo de cavalo, fui escorregando pelas pedras, a Ines segurou no meu cabelo com um braço forte, me salvando assim, de morrer afogada naquela água fria, que sorte!
Quando as férias terminavam,  voltávamos felizes e cansados de tanto subir e descer da Mangueira, fazer balanço em cima dela, correr e nadar na represa.
A casa em Franca aonde Dona Zélia havia reformado várias vezes era bem grande, na copa da casa havia uma pia que todo o natal fazíamos um belo presépio, com lagoa, peixinhos vivos, areia e ornamentos, lá ficávamos assistindo a televisão, a Ines colocava uma cadeira vermelha bem ao lado da pia e de lá ela não saia para ninguém se sentar na cadeira que era dela. Certo dia ela se desentendeu com o Marcelino e ele com raiva, cuspiu no copo que ela tomava o leite, não podíamos contar nada para ela, ficamos calados observando ela tomar todo o leite com a cuspida dele. Ela ficava horas e horas diante ao espelho penteando os lindos cabelos louros, colocava um vestido bem bonito, pulseiras e braceletes para ir à missa aos domingos de manhã, na verdade, ela ia à missa ver o Marlon que tocava o acordeon.
Quando chegava o natal ela enfeitava as garrafas com as velas para ascende-las durante a ceia de natal que fazíamos logo após a missa do galo.
Os bolos que ela fazia, também tinha magia, uma vez a massa do bolo não foi suficiente para cobrir toda a forma, então ela pegou uma faca, colocou bem no meio da forma e assou, quando ficou pronto, a metade da massa tinha ficado gostosa e a outra metade escorregou e se transformou em uma massa fina e queimada.

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